Muito ainda se vai falar a respeito do incêndio
que destruiu o terminal de passageiros do Aeroporto Santos Dumont (RJ),
na madrugada de uma sexta-feira 13, em fevereiro de 1998. Da mesma forma
haverá muito assunto sobre o desabamento (foto) de um bloco de 44
apartamentos de um edifício na Barra da Tijuca (RJ), no dia 22 do
mesmo mês, isto é, nove dias após o incêndio.
Tristes episódios como esses proporcionam matérias jornalísticas espetaculares, imagens impressionantes, entrevistas, acusações, obras, enfim, desdobramentos variados porém efêmeros.
De tudo o que possa advir de acidentes dessa magnitude, o mais importante é a reflexão e a posterior mudança de comportamento. Infelizmente, essa forma de repercussão, na maioria das vezes, só ocorre entre as pessoas diretamente envolvidas, sejam elas as vítimas e seus parentes ou os profissionais tecnicamente responsáveis pelo gerenciamento dos riscos que, pelo menos uma vez, materializaram-se em acidentes.
O ideal seria uma reflexão coletiva que viesse a contaminar as consciências com a cultura da segurança. Mas isso é utopia; consciências não se contaminam; consciências são formadas por meio de um lento processo: educação.
A cultura da segurança compreende comportamento, capacitação, investimentos, manutenção, fiscalização, participação, tecnologia, enfim, uma série de fatores que dependem de ações contínuas e do acúmulo de experiência. Educação para a prevenção: é isso que precisamos. Os conceitos básicos de prevenção de acidentes - no trânsito, no trabalho, em casa - precisam ser semeados a partir dos bancos escolares e cultivados nos cursos técnicos e universidades. Se assim for feito, os seus frutos - ambientes seguros e saudáveis - serão colhidos durante a vida de todos os cidadãos. Cada vez que essa colheita estiver ameaçada, os cidadãos conscientes estarão preparados para combater as pragas que se apresentarem, principalmente o descaso, desleixo, desrespeito, incompetência e má fé dos administradores públicos e privados, sejam eles governantes, parlamentares, empresários, fiscais ou tecnocratas de plantão.
Respeito aos trabalhadores, ao público e ao meio ambiente é
um exercício de cidadania. Priorizar a segurança e a saúde
do ser humano em todos os empreendimentos é uma forma de garantir
esse exercício e isso é um direito e dever de todos nós.
* Ricardo Pereira de Mattos (ripemattos@ig.com.br)
é engenheiro eletricista e engenheiro de segurança do trabalho.
A fotografia é de Pauty Araújo, publicada no JB
Online, de 23/02/1998.
P.S.: No dia 28/02/1998, a Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro promoveu
a implosão do que restou do edifício da Barra da Tijuca.
P.S.2.: Em maio de 2001, o engenheiro Sergio Naya, dono da Construtora
do Edifício Palace II, foi absolvido pela Justiça.
P.S.3.: Em junho de 2005, Sergio Naya, dono da Construtora
do Edifício Palace II, após recursos, foi novamente absolvido pela Justiça. A decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, considerou que havia erros técnicos na classificação do crime e absolveu o ex-deputado.
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